34. Teoria vs. Prática (3) / by Patricia Watson

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O poeta francês Paul Valéry relatou que numa conversa entre o pintor Edgar Degas e o poeta Mallarmé, Degas expressou sua frustração em tentar escrever poesia dizendo que “não é por falta ideias – tenho ideias até demais”. E Mallarmé respondeu “mas não se faz poesia com ideias, se faz poesia com palavras!”.

Clarice Lispector disse algo parecido “escrever é usar palavras como iscas, para pescar coisas que não são palavras.” –– ideias, sentimentos ou imagens que estão dentro de nós, mas de outra forma inacessíveis. Para levar sua analogia mais longe, “sem isca – sem peixe” significa “sem palavras – sem ideias”; então as palavras vêm antes. Duas ou mais palavras lançadas juntas de forma arbitrária podem provocar uma massa crítica que nos leva a imagens e ideias outrora inacessíveis. É por isso que, para escrever, você deve “sentar a bunda e escrever” (Stephen King).

Os dois escritores estão enfatizando algo que é óbvio para a maioria dos profissionais criativos, mas que pode não ser óbvio para iniciantes; isto é, ao contrário do senso comum, as ideias vêm do trabalho mais do que o contrário. Não é que a inspiração produza trabalho, é o trabalho que produz inspiração. Em outras palavras, você escreve escrevendo; você pinta, pintando; você toca, tocando; você compõe, compondo – não há outra forma. 

Essa mesma observação é feita por inúmeros profissionais que eu entrevistei nos últimos vinte anos. “Inspiração é para amadores” diz o pintor Nova Iorquino Chuck Close, “o resto de nós apenas aparecemos e trabalhamos”, ou, segundo o compositor minimalista John Cage “Ideias são uma coisa e o que realmente acontece é outra”.


34. Theory vs. Practice (3):

The French Poet Paul Valery told of how, in a conversation between painter Edgar Degas and poet Mallarmé, the former, expressing his frustration in not being able to write poetry, said “It’s not that I don’t have ideias––I have too many” to which Mallarmé replied “but you don’t make poetry with ideas, you make poetry with words.”

Brazilian writer Clarice Lispector said something quite similar “Writing is like using words as bait to fish for things that are not words” You could understand by “things that are not words”–– ideas, feelings or images which are there “inside” us but otherwise inaccessible. To take her analogy further then, “no bait––no fish” means “no words––no ideas”; so words come first. Two or more words thrown together in an arbitrary way can provoke a critical mass that takes us to otherwise inaccessible images or ideas. That’s why, in order to write, you have to “sit on your ass and write” (Stephen King).

Both writers are emphasizing something which though obvious to most creative professionals, is not necessarily obvious to beginners; namely that, contrary to common belief, ideas come from work rather than the contrary. It’s not that inspiration produces work, it’s that work produces inspiration. In other words, you write, writing; you paint, painting; you play, playing: you compose, composing––there’s no other way.

This same observation is made by so many of the professionals who I have interviewed over the last 20 years. “Inspiration is for amateurs” say’s New York painter Chuck Close, “the rest of us just show up and get to work.”, or minimalist composer John Cage “Ideas are one thing and what happens is another.”